Muito legal o texto do Jornalista Reinaldo Azevedo: O PT é uma soma quase perfeita de tudo o que repudio. Então por que escrevo o que escrevo? Porque o PT não me sequestrou

Os dias andam um tanto atrapalhados, confusos. Há mistura estúpida de fígado com princípios, de questões de estado com rancores pessoais.

Poucas pessoas teriam os motivos que tenho, fosse movido apenas por paixões, para querer ver Lula na cadeia, pouco importando o aporte legal.
Em 2006, quando o PT parecia mais eterno do que os diamantes, atuou, por intermédio de seus poderosos, junto a agências de publicidade para que a revista e o site que eu dirigia não tivessem nem mesmo anunciantes privados — por óbvio, não tínhamos nem um centavo da publicidade oficial.  As agências, quase todas com negócios diretos ou indiretos com o governo, em razão das estatais, cederam à pressão. Tive de fechar as portas.
Contratado pela VEJA, tornei-me alvo preferencial dos chamados “blogs sujos”, páginas que eram alimentadas pelo partido, com dinheiro público, para atacar seus desafetos na imprensa, na Justiça, na cultura, em qualquer campo. Um de seus mais virulentos militantes passou a me chamar de “besouro rola-bosta”. E isso era estampado em letras garrafais por aí.
O próprio Lula me brindou com o epiteto de “blogueiro falastrão”.
Tentaram ligar meu nome a investigações conduzidas pela Polícia Federal. Era um dos “inimigos” por excelência porque, ademais, havia criado os termos “petralha” e “esquerdopata”.
Só isso? Não! Alberto Cantalice, vice-presidente do PT, incluiu-me numa lista de nove pessoas que, segundo ele, faziam mal ao Brasil. Logo, quem queria o bem do país já sabia o que fazer, certo?
Teses
O PT abraça algumas das coisas que mais repudio em política e na vida pública. O partido tentou introduzir censura à imprensa e relativização da propriedade privada num programa de Direitos Humanos. Sim, fui o primeiro a denunciar. Mudaram o texto.
O partido tentou, de modo escancarado, censurar a imprensa por intermédio da criação do Conselho Federal de Jornalismo. Denunciei. No auge do poder, elaborou uma reforma política que buscava aniquilar os adversários. Aparelhou as instâncias do Estado e tentou se estabelecer como o “Moderno Príncipe” gramsciano, de sorte que, até para se opor ao partido, seria forçoso pertencer ao partido.
Tentou ser o imperativo categórico da sociedade.
Lula é o genuíno criador da lógica do “nós” contra “eles”. A legenda tinha muito claro que havia, sim, a “nossa moral” (que era a deles) e a “moral deles”, que era a nossa.
Já antes de chegar ao poder — e criei a palavra “petralha” antes de o partido vencer a primeira disputa presidencial, em 2002 —, dedicava-se com ferocidade à destruição de reputações. Nos palanques, Lula nunca deu a seus adversários nem o direito ao grau único de jurisdição. Endeusava e fuzilava pessoas ao sabor dos interesses do partido.
Essa prática de molestar adversários em ambientes públicos, que hoje atinge os petistas, é uma criação genuína do partido. Atingiu o estado da arte em 2013, com a tal “Mídia Ninja”, um de seus braços operantes, usando os modernos meios de interação para humilhar adversários e submeter seus críticos ao ridículo.
Na economia, o partido fez tudo o que repudio na esfera macroeconômica: aumentou o tamanho do Estado, elegeu seus “campeões” com dinheiro público, dedicou-se a subsídios tóxicos, a desonerações viciosas, demonizou as privatizações e as reformas, alimentou o ressentimento que chamo de “arranca-rabo de classes”, não de luta de classes. Porque, vamos convir, nem marxista o PT consegue ser já que lhe falta essa sofisticação, ainda que deletéria.
MPF e outros bichos
Já escrevi aqui muitas vezes: esse Ministério Público Federal que aí está é filho dos professores petistas dos anos 80. Foram eles a espalhar pelos bancos escolares “o direito achado na rua”; o direito do improviso; o direito do alarido. O PT sempre foi um cultor entusiasmado do chamado “direito penal do inimigo”. Usou, durante o governo FHC, procuradores federais para montar uma indústria de denúncias, em conluio com setores da imprensa.
Geraldo Brindeiro, um homem correto, virou o engavetador-geral da República porque não dava curso às acusações amalucadas do partido.
No terreno mais geral, filosófico, investiu em coisas que abomino, como a “ideologia identitária”, que inclui a de gênero, de sorte que a sociedade deixa de existir como uma comunhão de diferenças e passa a ser uma luta permanente de tribos hostis.
Ainda hoje, alguns de seus intelectuais e agitadores, ora vejam, acham um absurdo o que MPF faz com Lula, mas não hesitam um minuto em endossar os Torquemadas da Lava Jato quando os alvos são os adversários do partido. Seu lema, escrevi isto em livro, sempre foi: “Aos amigos tudo, menos a lei; aos inimigos, nada; nem a lei”.
Guindou algumas pessoas ao Supremo que lá chegaram com uma pauta: a do partido. Como a legenda caiu em desgraça, junto com seu líder maior, as estrelas vermelhas do tribunal se tornaram perseguidores exemplares de… Lula.
Então por quê?Por que digo que o chefão petista foi condenado por Sérgio Moro sem provas? Porque li o processo e a sentença, e a provas não estão lá.
Por que acho que ele tem de receber o habeas corpus? Porque defendo o que está na Constituição e no Artigo 283 do Código de Processo Penal.
Por que critico duramente os procuradores que tentam condená-lo pelas redes sociais? Porque não reconheço esse direito aos doutores.
Seria eu vítima da Síndrome de Estocolmo? Quero que os petistas me achem um cara legal? Pretendo ser um deles?
O que vai acima é apenas uma versão pálida das objeções que tenho ao partido.
Ocorre que, quando rompi com a esquerda, há 35 anos, eu o fiz em razão dos valores que tenho agora. Sou um democrata de direita, um liberal, um legalista — desde que se trate da legalidade… democrática. Não condescendo com meios ilícitos sobre o pretexto de alcançar finalidades nobres.
E, por isso tudo, o PT não me servia e não me serve.
E, por isso tudo, digo o que digo.
Na esfera, digamos, da moral da história, Lula e o PT merecem as agruras pelas quais passam. Mas o meu compromisso com o país e com a coisa pública vai além da literatura da vingança, sempre ruim.
Repudio que Lula seja condenado sem provas porque repudio que qualquer homem seja condenado sem provas.
Sou contra a execução antecipada da pena para Lula porque sou contra a execução antecipada da pena para qualquer pessoa enquanto a Constituição for a que temos aí.
Não sou a única pessoa intelectualmente honesta do debate. Mas me sei e sou intelectualmente honesto.
Aliás, a desonestidade intelectual é das poucas coisas que me levam a romper uma amizade.
Divergências ideológicas, para mim, não têm nem nunca tiveram a menor relevância.
E digo o que penso, ainda que guelfos e gibelinos esperneiem. Até porque alimento pelos covardes e oportunistas a repulsa que tenho pelos desonestos.
Eu teria sido sequestrado pelo PT se, agora, endossasse contra o PT os métodos que sempre repudiei no… PT.
É isso.
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